quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

No Limite da Sedução


Quando estas fotografias foram tiradas, no percurso da inquietação de Jorge Guerra, em Portugal vivia-se ainda, com aquelas raras e conhecidas excepções, no limbo do perfeccionismo salonista, com temas acomodados á situação e esperança de mostra em espaço e olhar corporativo.
Entre 1965 e 1968, anos quentes onde se queimavam as últimas modalidades da contracultura e da contestação, Jorge Guerra fotografa em Londres, Veneza, Lisboa e no México estas imagens. São um resumo das contradições da sociedade e da cultura da época e, olhando-as, olhamos também as razões porque valia a pena, então, lutar. E é um grupo de potenciais contestatários que aqui reconhecemos, tanto mais autêntico porque representa diferentes margens do social e diversos apelos irrecusáveis do imaginário da frustração na, ao que dizia, próspera economia dos anos anos sessenta: as profissões pré-industrais mostrando-se, ainda irrecusáveis, na capital do país como no México mais profundo, a degradação idêntica dos rostos e dos muros, o medo presente no olhar furtivo do suburbano, os nossos fantasmas a congregarem-se naquela impressionante perseguição que, em Lisboa, uma velhinha em passo alucinante, parece desenvolver na peugada de uma jovem desprevenida. Como todos nós, num mundo de perigos inesperados e muitas tensões.
Jorge Guerra, munido de uma cultura que é, ainda ocidental e não de globalização, sugere-nos indícios de um imaginário que nos é muito caro, porque com ele faziamos as nossas pesquisas e quadros de experiência – numa imagem irónica, os empregados da city bancária, em Londres, o histrionismo do submundo italiano dos pequenos e indizíveis negócios, todo um molho de ideais que cai, rosto abaixo num desalentado manifestante londrino.
Esta fotografia deve alguma coisa a Cartier Bresson e à sua intervenção fotográfica. Trata-se aqui de acontecimentos que poderemos chamar de decisivos, porque congregam toda a interpretação do mundo. Mas há qualquer coisa de novo nestas imagens, alheio à insustentável metafísica de Bresson, que é o peso do corpo. Sentimos estes corpos na sua densidade e espessura, nos ombros direitos de um sapateiro do México, estuante de reconhecimento de si, na insegurança dos homens da city, no afã mafioso com que estereotipados italianos tentam crescer a partir de uma estatura pouco lisongeira. Sentimos quem está bem e quem está mal no corpo e na vida. E sabemo-lo porque um cenário bem definido os caracteriza e a inquietação de um olhar os quís assim.
Por isso se torna indispensável ter lido – ou ter visto depois - a Morte em Veneza, para avaliar o abismo que o rosto displicente e narcísico daquele adolescente que olha as águas do canal da cidade do Pó, pode despertar em nós, através de um sentimento de “já sentido”, com que se constrói a memória.
É neste limite do referente e do sábio investimento da cultura que a fotografia de Jorge Guerra suspende a evocação do “já sentido” e insinua a sedução.

Exposição patente até 9 de Março de 2008

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